A Lei do Superendividamento entrou em vigor em 2021 com o objetivo de ajudar consumidores que perderam o controle financeiro e passaram a ter grande parte da renda comprometida com dívidas, principalmente bancárias.
Essa legislação trouxe um caminho legal para reorganizar a vida financeira e evitar que o consumidor fique preso a empréstimos, juros abusivos e cobranças constantes.
O principal objetivo da lei é permitir que a pessoa renegocie suas dívidas de forma judicial e consiga voltar a viver com dignidade, mantendo o mínimo necessário para sua sobrevivência.
O que é a lei do superendividamento
A lei do superendividamento é um mecanismo jurídico que permite a reorganização das dívidas de consumidores que não conseguem mais pagar seus compromissos sem comprometer despesas básicas, como alimentação, moradia e saúde.
Ela funciona como um processo de repactuação judicial das dívidas, reunindo todos os credores e estabelecendo um plano de pagamento possível para o consumidor.
Quem pode solicitar a lei do superendividamento
Podem recorrer à lei pessoas físicas que:
- tenham renda, mas não conseguem pagar todas as dívidas
- estejam com grande parte do salário comprometida
- tenham contraído dívidas de boa-fé
- queiram pagar, mas não conseguem manter os pagamentos atuais
Ela não se aplica a empresas.
Servidores públicos e empréstimos consignados
Um dos grupos mais afetados pelo superendividamento são os servidores públicos e trabalhadores com crédito consignado.
Pela facilidade de contratação, muitas pessoas acabam assumindo diversos empréstimos ao longo do tempo e comprometendo mais de 70% da renda mensal.
Nesses casos, a lei permite a revisão da situação e a reorganização dos pagamentos.
Quais dívidas entram no processo
Podem ser incluídas:
- empréstimos bancários
- cartão de crédito
- cheque especial
- dívidas de consumo
- financiamentos pessoais sem garantia
A proposta é reunir tudo em um único plano de pagamento.
Quais dívidas não entram
Não entram no processo:
- financiamento de imóveis
- financiamento de veículos com garantia
- dívidas com garantia real
- dívidas feitas para aquisição de bens de luxo
Esses contratos possuem regras próprias e não podem ser incluídos na repactuação geral.
Como funciona a repactuação judicial das dívidas
O processo reúne os credores e cria um plano de pagamento viável para o consumidor.
Normalmente, esse plano prevê:
- carência inicial
- parcelamento das dívidas
- divisão proporcional entre credores
- prazo de pagamento que pode chegar a até 60 meses
A ideia é permitir que a pessoa continue pagando, mas dentro da sua realidade financeira.
O que acontece com o nome no Serasa e SPC
Uma das principais dúvidas é sobre a negativação.
Quando a ação é aceita, o juiz pode determinar:
- retirada do nome dos órgãos de proteção ao crédito
- suspensão de cobranças abusivas
- interrupção de ligações constantes
Isso permite que o consumidor tenha um respiro financeiro e psicológico.
Limite de descontos na renda
Dependendo do caso, o juiz pode determinar a suspensão ou limitação dos descontos, principalmente em empréstimos consignados.
Em muitos processos, o limite estabelecido gira em torno de 30% da renda líquida, garantindo que o consumidor consiga manter despesas básicas.
Revisão de juros e cláusulas abusivas
Além do parcelamento, a ação pode incluir a revisão dos contratos.
Isso permite:
- redução de juros excessivos
- análise de cobranças indevidas
- reequilíbrio financeiro
O Brasil possui taxas de juros elevadas, especialmente em cartão de crédito e cheque especial, o que contribui diretamente para o superendividamento.
Por que muitas pessoas chegam ao superendividamento
O problema normalmente começa com um primeiro empréstimo.
Depois, surgem:
- novos créditos
- uso do cartão
- renegociações
- novos parcelamentos
Quando a pessoa percebe, toda a renda está comprometida e a dívida continua aumentando.
O dinheiro passa rápido, mas o pagamento permanece por anos.
A lei do superendividamento é uma solução definitiva?
Ela não elimina a dívida.
O objetivo é reorganizar e tornar o pagamento possível.
A lei protege o consumidor de abusos, mas exige responsabilidade e compromisso com o plano definido judicialmente.
Quando procurar um advogado
O procedimento ainda é recente e existem diferenças de entendimento entre tribunais.
Por isso, a orientação jurídica é fundamental para:
- avaliar se a pessoa se enquadra na lei
- organizar documentos
- montar o plano de pagamento
- conduzir o processo judicial
Cada caso possui particularidades e precisa ser analisado individualmente.
A lei busca devolver dignidade ao consumidor
A Lei do Superendividamento foi criada para ajudar quem quer pagar suas dívidas, mas não consegue mais manter o ritmo atual de cobranças.
Ela não é um incentivo ao não pagamento, mas uma forma de reorganizar a vida financeira e permitir que o consumidor volte a ter controle sobre sua renda.
Sobre o autor
Daniel Romano Hajaj é advogado especialista em Direito do Consumidor e Direito Bancário, atuando na orientação de pessoas com dívidas bancárias, superendividamento e renegociação judicial de contratos.

